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Alta montanha e água fluindo
Alta montanha e água fluindo

Em chinês, a expressão Cau shan liu shui (Alta montanha e água fluindo), um idioma de 4 caracteres, é usada frequentemente para descrever uma verdadeira amizade. Um amigo é quem entende o que queremos dizer para além das palavras.
É alguém que entende e aprecia «a nossa música».



Alta montanha e água fluindo

Numa noite de luar em que Yu Boya, um alto funcionário do estado de Jin, estava num barco a tocar alaúde, apercebeu-se que havia alguém por perto que o escutava. Era um jovem lenhador, chamado Djong Zitchi. Quando Yu o viu, perguntou-lhe se sabia que melodia estava a tocar.
- É Confúcio a chorar a morte de Yan Hui, respondeu Djong.
Yu ficou surpreendido com os conhecimentos de Djong, sobretudo quando este se mostrou conhecedor de teoria musical. Quando tocou uma outra melodia, inspirada numa montanha, Djong falou imediatamente do modo magnífico como ela conseguia descrever a majestade de uma alta montanha. Tocou depois uma música inspirada num rio. Djong, depois de a ouvir, falou imediatamente do rápido fluir da água de um rio de montanha.
- Ninguém conhece a minha música como tu, disse-lhe Yu Boya, muito contente.
Imediatamente se sentiram unidos como irmãos e prometeram encontrar-se de novo no ano seguinte.
Mas, no ano seguinte, quando Yu voltou ao mesmo lugar, descobriu que Djong Zitchi tinha morrido. Extremamente triste, Yu foi visitar a sua campa e, em frente a ela, tocou uma última melodia. Quando terminou, destruiu o alaúde, atirando-o com força para o chão. Nunca o voltaria a tocar outra vez, porque tinha perdido aquele que realmente conhecia a sua música.

 
 
 
Chuang Tse
O Segredo do Crescimento
 
O cozinheiro do príncipe Wen Hui estava a trinchar um boi. Os movimentos da mão, os jeitos de ombro, os movimento dos pés, o atirar do joelho,o som da carne a apartar-se e ser cortada e o zumbido da faca todos estavam num ritmo perfeito, como se fosse uma dança ou uma sinfonia.
- É maravilhoso ver como conseguiste dominar a tua técnica ! , comentou o príncipe.
O cozinheiro pousou a sua faca e disse:
- Procuro agir de acordo com o Tao , a ordem natural das coisas. É algo que está para além da mera técnica. Quando comecei a talhar, via à minha frente o boi todo. Mas, depois de três anos de prática, já não os via como um todo. Via as distinções. E, agora, os meus sentidos param de funcionar e é o espírito que me guia livremente. Sem um plano, seguindo o instinto, sigo as fibras naturais deixando a faca encontrar o seu caminho entre as muitas aberturas escondidas, tirando proveito do que lá está, sem tocar nunca num ligamento ou tendão e muito menos numa articulação importante.
Um bom cozinheiro muda de faca uma vez por ano, porque sabe trinchar, enquanto um cozinheiro medíocre tem que mudar de faca cada mês, porque só sabe cortar. Pois eu já tenho esta minha faca há dezanove anos e trinchei milhares de bois com ela. E, no entanto, a lâmina está tão fresca como quando saiu da pedra de afiar. Há espaços entre as articulações. E a lâmina da faca, que quase não tem espessura, tem mais que espaço para passar através desses espaços. E é por isso que, passados dezanove anos, a minha lâmina está tão afiada como sempre.
É verdade que há articulações mais difíceis. Quando as sinto aproximar, avalio bem a articulação que surgiu e olho-a com cuidado, mantendo sempre os olhos no que faço e trabalhando devagar. E então, com um movimento muito suave da faca, trincho todo o boi em dois. E ele desmancha-se como um torrão de terra ao cair no chão. Aí, retiro a faca e fico parado, com a sensação de ter conseguido algo de muito importante. Depois, limpo a lâmina e poiso a faca.
- É isso!, disse o príncipe. O meu cozinheiro mostrou-me como devo viver a minha vida!